quinta-feira, 2 de abril de 2015

OSCAR ALTERNATIVO: Melhor Atriz Principal - 1953







Anne Baxter
A Gardênia Azul
(The Blue Gardenia)

Visão Geral: Apesar de um Óscar na bagagem e uma filmografia de dar inveja, Anne Baxter é uma das atrizes mais subestimadas de sua geração. O fato de sua mais famosa aparição no cinema ser em A Malvada (1950), filme lembrado por conter a mais icônica e grandiosa performance da mais amada atriz da história Bette Davis, não a ajuda a ter seu trabalho mais valorizado. Com o tempo fui percebendo que Baxter é uma das atrizes mais versáteis de sua época. A diferença gritante da atuação que dá em O Fio da Navalha (1946) para Os Dez Mandamentos (1956), por exemplo, mostra bem isso. Em A Gardênia Azul, Baxter carrega um film noir nas costas, coisa rara, pois é um gênero bastante masculino em que as personagens femininas eram quase todas mulheres sensuais e de caráter duvidoso. Aqui temos uma personagem mais multifacetada, uma mulher que, longe do homem que ama, acaba em uma noite bebendo demais a ponto de não se lembrar no dia seguinte se cometeu ou não o assassinato do homem com quem passou a noite. O que eu mais gosto é que qualquer outra atriz teria abusado dos exageros e das facetas mais melodramáticas possíveis, mas Baxter é sútil até nas cenas em que está bêbada. Na segunda metade, a química entre ela e Richard Conte funciona muito bem, assim como funcionou durante o filme inteiro com Ann Sothern, onde tivemos as cenas mais luminosas da personagem, onde Baxter também arrasou.



Ida Lupino
O Bígamo
(The Bigamist)

Visão Geral: Ida Lupino é tão subestimada como atriz quanto é como diretora. Martin Scorsese em seu documentário cita Lupino como uma diretora a se descobrir, já que todos seus filmes se tornaram peças obscuras do cinema. O Bígamo foi o penúltimo filme para cinema que Lupino dirigiu, e seu único que ela mesma protagonizou. Ao lado de um inspirado Edmond O’Brien e uma madura Joan Fontaine, Ida Lupino desconstruiu sua própria figura de femme fatale de film noir e viveu uma garçonete com toda simplicidade possível sem abandonar sua sensualidade e vaidade. O maior triunfo de Lupino foi conseguir fazer um filme sobre um bígamo funcionar em uma sociedade conservadora, e ela fez isso tanto como diretora quanto atriz. Sua participação no filme não dura muito mais do que 22 minutos, mas até Joan Fontaine, que facilmente é uma das minhas atrizes favoritas, é ofuscada por Lupino, e a atriz não precisou em momento algum de cenas espalhafatosas e melodramáticas para isso fazer.


Danielle Darrieux
Desejos Proibidos
(The Earrings of Madame de... / Madame de...)
½

Visão Geral: Eu costumo ter uma queda bastante grande por atrizes francesas, porque costumam atuar de maneira sútil sem deixar de chamar nossa atenção. Danielle Darrieux não está entre as minhas atrizes francesas favoritas, mas em Desejos Proibidos, do maravilhoso Max Ophüls, ela entregou a grande performance de sua carreira. E não há nada de diferente do que já disse: vemos toda a sutileza do mundo e, mesmo assim, nos sentimos tão impactados que é como se tivéssemos visto algo gigantesco. O filme, que conta a história de uma mulher da alta sociedade, infeliz em seu casamento, que se endivida em jogo de sorte e que só consegue mudar despois de descobrir o verdadeiro amor. É numa incrível personificação que Darrieux nos dá a sensação de que estamos vendo história acontecer. É como se estivéssemos realmente naquela época, vendo uma história sobre o fracasso do casamento arranjado e como ele acaba com a possibilidade de qualquer amor verdadeiro. Danielle Darrieux pode ser uma atriz limitada e não ter a mesma versatilidade de uma Simone Signoret ou de uma Jeanne Moreau, mas ela fez de Madame de... uma criação tão autêntica e sensível que não conseguimos imaginar nenhuma outra atriz no papel.



Harriet Andersson
Monika e o Desejo
(Summer With Monika / Sommaren med Monika)


Visão Geral: Monika e o Desejo é mais um entre tantos outros filmes excelentes de Ingmar Bergman, e talvez a sua obra que mais flerta com o cinema neorrealista. A sensação que tive ao ver o filme é como se Roberto Rossellini estivesse contando a história de Badlands nos anos 50. É verdade que a marginalidade de Monika e seu namorado não se comparam a maneira criminosa com que Kit e Holly viveram sua aventura. A vida a dois que ambos decidiram ter foi conturbada justamente pela completa inexperiência de ambos, que achavam que o amor bastava. Harriet Andersson tinha apenas 20 anos na época, mas maturidade suficiente para viver Monika sem errar em momento algum. Muitos têm Através de Um Espelho como sua melhor performance, mas digo de cara que ela está muito superior aqui, mesmo Monika não tendo esquizofrenia, ela tem muito mais possibilidades de passear pelas nuances da personagem. Imagina que grande papel é o de uma garota que larga os pais para ir viver com o namorado ajudante de padeiro, e como ela lida com os fracassos de suas escolhas? Há uma cena em especial que a personagem olha diretamente para o espectador e o entrega uma expressão de quem encarra alguém que está apontando o dedo pelos seus erros. É Monika dividida entre o arrependimento e o orgulho. Sem contar uma cena lindíssima de nu em que aprendemos como contemplação é algo indispensável no cinema. Harriet Andersson está nota 10 em Monika e o Desejo.



Simone Signoret
Teresa Raquin
(Thérèse Raquin)

Visão Geral: Não tem jeito, depois de Thérèse Raquin, Simone Signoret se tornou a minha atriz favorita. O papel de uma esposa infeliz no casamento que acaba traindo o marido é dos maiores clichês do cinema, mas nas mãos de Simone Signoret parece novidade. Costumo dizer que Joan Fontaine tem o poder de fazer qualquer de suas personagens parecerem que saíram diretamente de um livro de literatura clássica, principalmente em seus papéis em Rebecca e Carta de uma Desconhecida, mas Simone Signoret foi além aqui. Sua personificação é tão lírica que é como se estivéssemos vendo a imagem definitiva da mulher adultera que a literatura retratou tantas vezes. Talvez Raquin não seja uma personagem tão multifacetada quanto Monika e Madame de..., mas Signoret encontra cada camada da personagem e nos mostra com as mais singelas das expressões faciais e corporais cada uma delas. Outra coisa que gosto muito em Signoret é que ela é capaz de diferenciar suas personagens sem precisar mudar qualquer coisa em seu visual, sua Teresa Raquin é diferente de tudo que ela fez antes e depois. Nunca sentimos qualquer simpatia pela personagem, nem sequer torcemos para ela, mas a presença tão arrebatadora de Signoret em tela faz com que nos sintamos agraciado por algo grandioso e tão natural, real e feito com paixão. Um trabalho complexo que engrandece um filme e o torna inesquecível.



Machiko Kyô aparece muito pouco em Irmão, Irmã, mas está sensacional na sequência final e seria minha sexta escolha, mas vou manter Audrey Hepburna e indicar Kyô por Ugetsu na categoria coadjuvante. Simone Signoret em Teresa Raquin tem minha vitória, sem dúvidas.




Ranking dos filmes:
Summer With Monika ½
Thérèse Raquin 
The Earrings of Madame de... 
The Bigamist ½
The Blue Gardenia ½


Ranking Geral:
1. Simone Signoret - Thérèse Raquin
2. Harriet Andersson - Summer With Monika
3. Danielle Darrieux - The Earrings of Madame de...
4. Ida Lupino - The Bigamist
5. Anne Baxter - The Blue Gardenia
6. Audrey Hepburn - Roman Holiday
7. Machiko Kyô - Older Brother, Younger Sister
8. Ava Gardner - Mogambo
9. Susan Hayward - The President's Lady
10. Ethel Merman - Call Me Madam
11. Barbara Stanwyck - All I Desire
12. Geraldine Page - Hondo
13. Leslie Caron - Lili
14. Jane Russell - Gentlemen Prefer Blondes
15. Maggie McNamara - The Moon Is Blue
16. Joan Fontaine - The Bigamist
17. Jean Peters - Pickup on South Street
18. Jean Peters - Niagara
19. Marilyn Monroe - Niagara
20. Marilyn Monroe - Gentlemen Prefer Blondes
21. Jennifer Jones - Indiscrition of a American Wife
22. Chieko Higashiyama - Tokyo Story
23. Grace Kelly - Mogambo
24. Anne Baxter - I Confess
25. Deborah Kerr - Dream Wife


Supporting Actress:
1. Setsuko Hara - Tokyo Story
2. Thelma Ritter - Pickup on South Street
3. Deborah Kerr - From Here to Eternity
4. Sylvie - Thérèse Raquin
5. Machiko Kyô - Ugetsu
6. Gloria Grahame - The Big Heat



Próximo Ano: 1995
Kathy Bates, Dolores Claiborne
Sandrine Bonnaire, The Ceremony
Isabelle Huppert, The Ceremony
Jennifer Jason Leigh, Georgia
Nicole Kidman, To Die For
Julianne Moore, Safe

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